segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

GAROA - Dorival Cardoso Valente


Quando se encontraram, na Rua do Sem Querer, ela não era mais menina, ele não envelhecera tanto. Os corpos trazem histórias diferentes da alma.
O que terá sido?
O que teria sido?
Perguntas que não se fazem sozinhas, mas se adivinha.
O trivial contar dos dias, das vitórias, de uma ou outra batalha perdida.
Os ouvidos ouvem. A boca responde. Mas os olhos...
Os olhos não buscam palavras, não precisam delas.
As mãos buscam a bolsa, o bolso. Controlam os braços.
A ponta do pé esquerdo dele chuta o chão. O pé direito finca-se no solo como um esporão. Não vai nem vem.
O pé direito dela apaga o inexistente cigarro e seu calcanhar circula como uma brincadeira infantil. O pé esquerdo finca-se como um esporão no solo. Não vai nem vem.
Os pêlos eletrizados.
O coração, quem diria?, acelerado.
A respiração ritmada.
As consciências prejudicadas, um pouco afetadas, ainda controlam a exposição dos desejos.
O tempo mudou.
Uma garoa. 
Coisa pouca. 
Umas gotas mal caídas do céu dispersam o encanto para suas opostas direções e encerram a história.
Uma garoa.
Coisa pouca.
Umas gotas mal caídas do céu.
FIM




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