quinta-feira, 24 de agosto de 2017

DURANTE UM CAFÉ SOLITÁRIO ADMIRANDO UMA ÁRVORE

Se a morte fosse simples como tomar um comprimido...
Mas não é. Morrer é difícil! Leva tempo, uma vida toda.
A morte ideal não seria numa manhã, ou numa noite.

Seria de tarde, uma bela e morena tardezinha. Depois do almoço, depois do café, depois das notícias do dia, depois do calor, depois da vista se cansar da paisagem, depois das fofocas das vizinhas, depois do barulho, depois da chuva, depois da roupa secar, depois do gato Saramago espiar, depois do doce, depois do brigadeiro de chocolate (diet), depois de me descuidar, depois de sair da rotina, depois de fazer as pazes com o Amor de Índio, depois de deixar de besteira, depois da dor, depois do sonho esquecido, depois de esquecer de apagar, depois de criar nova dívida, depois de pensar nos filhos, depois de lembrar do amigos, depois de um romance, depois de escrito, depois de um conto, depois da poesia, depois das estrofe, depois do verso, depois da rima perdida, depois de um versículo, depois de um prostíbulo, depois de um cálculo impreciso, depois de deixar para depois, depois de um desejo, depois de um medo, depois de um modo, depois de um receio, depois de uma viagem, depois de mais um imã turístico, depois de um passeio de trem, depois da fumaça, depois da estrada, depois de voar, depois de caminhar, depois de rodar, depois da ciranda cirandar, depois de cansar, depois da necessidade, depois de qualquer certa idade, depois da adversidade, depois da separação, depois da reunião, depois da re-união, depois do mal, depois da solidão, depois da certeza, depois da avareza, depois do medo, depois do MEDO, depois do me-do, depois do m e d o, depois de todas as formas de Temer, depois do asfalto, depois do cimento lógico, depois do cinza, depois da derrota, depois do título, depois da vitória, depois da insignificância, depois do signo, depois do sintagma, depois do paradigma, depois da borracha, depois da palavra, depois da liberdade, depois de Mário de Andrade, depois de Aníbal Machado, depois de Dalton Trevisan, depois de Clarice Lispector, depois de Elis, depois do que eu fiz, depois da aula, depois da mente sana, depois do corpore insano, depois de um bando, depois de um palco, depois do talco, depois do balanço, depois do trapézio, depois do palhaço, depois de malabareado, depois do picadeiro, depois do retrato, depois do circo inteiro, depois do imposto, depois do permitido, depois do oprimido, depois do Anjo, depois da Santa, depois do proibido, depois da liberdade, depois dos receios, depois dos seios, depois do corpo inteiro, depois do sexo sem nexo, depois da preguiça, depois da geringonça, depois do conserto, depois do concerto, depois da sessão, depois da cessão, depois do direito, depois do direto, depois do incerto, depois do devaneio, depois de tudo que é querido, depois de tudo que não anseio, depois de escrito, depois de revisto, depois de rasgar, depois de recomeçar, depois de terminado o livro, depois dos correios, depois da self, depois do não serve, depois de gritar, depois do silêncio, SILÊNCIO, depois do respeito, depois da violência, depois da necessidade de Deus, depois da cidade, depois do camafeu (quem foi camafeu?), depois da idolatria, depois da indiossincrasia, depois da magia, depois do pão quente, depois da glória, depois do anonimato, depois do eu te mato, depois do milagre, depois da medicina, depois da oficina, depois do dinheiro, depois de chegar, depois de sorrir, depois de avisar a partida, depois da razão, depois de repetir, depois da razão, depois de ecoar, ar, ar, depois do ar, depois de não refletir, depois da paixão, depois de deixar de ser, depois de existir, depois do fim, depois, enfim, depois de mim...    ... e, ao menos, um segundo antes de deixar de amar! 

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